Indústria global de coaching cresce 17% e movimenta US$ 5,3 bi
Dos 122 mil profissionais estimados, 8,8 mil estão na América Latina, e 56% têm gerentes e executivos do C-level como principais clientes
Como destaca Anna Elisa Mussi, presidente da ICF Brasil, o crescimento vem acompanhado de um desafio essencial: credibilidade. Em um mercado promissor, o diferencial está na formação sólida, no método e na ética profissional — longe de promessas fáceis. A matéria também traz exemplos inspiradores de coaches como Andréa Mazarem e Marcus Baptista, que atuam com coaching executivo e de equipes, apoiando líderes a encontrar clareza, propósito e alta performance sustentável.
A indústria global de coaching movimentou US$ 5,3 bilhões em receitas em 2024, um aumento de 17% em relação a 2023, enquanto o número estimado de especialistas alcançou 122,9 mil, alta de 13% ante o ano anterior – do total, 8,8 mil profissionais (7%) estão na América Latina e Caribe. A maioria dos coaches é mulher (72%), com 45 a 60 anos (53%), e acumula, pelo menos, cinco anos de atividade (72%). Dois terços possuem nível superior, com um mestrado ou doutorado no currículo, e mais da metade (56%) tem gerentes e executivos do C-level como principais clientes.
Os dados são de uma pesquisa da International Coaching Federation (ICF), considerada a maior associação global do segmento, conduzida pela PwC entre fevereiro e abril de 2025 em 127 países, inclusive o Brasil. O levantamento, obtido pelo Valor, ouviu 10.035 profissionais, entre coaches (89%) e gestores corporativos que utilizam fundamentos de coaching em suas funções (11%).
“O Brasil está inserido em um mercado emergente [da profissão], com um alto potencial de crescimento”, afirma Anna Mussi, presidente do capítulo nacional da ICF. “A América Latina é a região que apresenta a maior proporção de contratações para clientes executivos [29%] ou quando o empregador patrocina o processo [de coaching].”
Os especialistas da região, segundo o mapeamento, cobram a menor taxa por hora (US$ 129), enquanto os colegas da América do Norte (US$ 297) e da Oceania (US$ 249) estão entre os mais caros.
O ofício tem obstáculos pela frente, segundo Mussi. “No Brasil, enfrentamos desafios pela vinculação da profissão a uma certa banalização”, analisa a presidente, acrescentando que 62% dos coaches na América Latina apontam a preocupação com a credibilidade como um fator de risco para o avanço de seus trabalhos.
“No entanto, as empresas continuam contratando os coaches”, pondera. “Entre os mais experientes, 66% dos clientes têm sessões pagas pelas empresas, com o intuito de desenvolver os executivos”. O estudo mostra ainda que 59% dos entrevistados na América Latina esperam um crescimento nos negócios, no próximo ano, principalmente por conta da adesão de mais interessados nos serviços (60%).
É o caso de Andréa Mazarem, que trabalha como coach profissional há mais de 15 anos, centrada em coaching executivo, de carreira e para equipes. “Meu foco é fortalecer lideranças e culturas organizacionais mais conscientes, inclusivas e orientadas a resultados sustentáveis”, diz a também professora e psicóloga com especialização em gestão de pessoas. “Atendo, em média, de 12 a 15 clientes ao mês, entre processos individuais e programas corporativos em grupo.”
Mazarem relata que as demandas mais comuns nas consultas são relacionadas ao aprimoramento de atributos, como visão sistêmica e influência estratégica. “Também atuo em projetos de diversidade e aceleração de carreira para grupos sub-representados, com as mulheres negras”, diz a profissional com uma carteira formada por companhias de médio e grande porte dos segmentos de finanças, educação, indústria e TI.
Marcus Baptista, na área há 23 anos, diz que os executivos estão pedindo mais orientações para ter “clareza sobre seus caminhos”. “Não dou respostas. Ajudo a encontrá-las”, afirma o especialista, que antes de ser coach construiu uma carreira de mais de 20 anos como executivo, em corporações como Pepsico e Unilever.
Adepto do “team coaching” (coaching de equipes) ele auxilia 12 clientes corporativos e relata que até 70% das solicitações são sobre como ocupar melhor um espaço profissional já conquistado. “Seja um vice-presidente que se torna CEO ou um gerente que assume pela primeira vez uma diretoria”, detalha. “Todos buscam compreender como se relacionar com pares e liderar equipes.”
Outra preocupação comum entre executivos bem-sucedidos e próximos aos 45 anos de idade é como encontrar autenticidade e propósito na carreira, continua Batista, que também atende em inglês e espanhol e já orientou mais de 650 profissionais.
“O ‘team coaching’ tem o papel de ‘soprar as brasas’ para reacender o fogo interno e o sentido coletivo”, garante. Ao contrário do aconselhamento individual, o “team coaching” não se restringe a apoiar um único funcionário, mas transformar um grupo de talentos em um time de alta performance.
Na avaliação de César Campos, no segmento há mais de 15 anos, a representatividade do profissional de coach mudou. “Nos últimos anos, o perfil predominante tem sido de mulheres entre 30 e 55 anos”, aponta. “São jovens líderes ou executivas seniores em busca de maiores posições ou em transição de carreira.”
Campos, que concilia o trabalho com a agenda de diretor em uma multinacional alemã, chama a atenção para as ameaças à profissão. “O termo ‘coach’ vem sendo utilizado por pessoas que não estão preparadas para conduzir essa prática”, argumenta o especialista, que tem se dedicado aos talentos 50+. Promessas milagrosas são oferecidas sem método, não atingem resultados e frustram os clientes, alerta. “Essa profissão pressupõe uma responsabilidade gigante, pois tem o poder de transformar a vida dos outros.”
Fonte: Valor Econômico https://valor.globo.com/carreira/noticia/2026/01/19/industria-global-de-coaching-cresce-17-e-movimenta-us-53-bi.ghtml
